quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

SOBRE VEADOS, POLITICOS E CINEASTAS

O cineasta é um intelectual que dá entrevistas sobre os filmes
Sempre achei estranho a palavra cineasta. O que mais termina com "asta"?
Entusiasta, pederasta..
“Cineasta” parece adjetivo. Qual profissão termina com asta? Será que ser cineasta não é uma profissão e sim uma “qualidade do meu ser”?
Cine-asta. Cine-rasta. Cine-astro. Cine-astro tem tudo a ver. No Brasil cine-asta é antes de tudo uma figura midiática: o cara que da entrevista sobre o filme.
Millor já dizia que política é o star system de gente feia. Cineasta é o star system para artista feio. Cineasta é o político pop.
Uma amiga lembrou outra profissão, além de cineasta, que termina com “asta”. Ginasta. Perdi, playboy.
Mas é uma exceção que confirma a regra. Cineasta está mais para ginasta do que para advogado e engenheiro.
Será que é porque, tal como os ginastas, o cineastas vivem fazendo malabarismos? O cineasta é o ginasta do cérebro.
No perfil me defini como ex-político. Mas aí lembrei do coronel Sarney dizendo na Globonews: política só tem porta de entrada, não tem de saída. Ai, que medo...
Será que não existe ex-político? Lembrei dos policiais de meu filme dizendo que não existe ex-puta. Uma vez puta, puta sempre serás!
Lista de coisas que não existe “ex”: político, puta, bandido, mafioso, vampiro, veado... Veado?
Essa é uma polêmica séria na Liga dos Machistas Homofóbicos Esclarecidos. Existe ex-veado? Ou uma vez veado, sempre veado?
A polemica segue. Se o cara deu só uma vez já é veado para todo o sempre? E se o cara deu e não gostou? Ainda assim é veado?
Isso do gostou é importante. Tenho um amigo ator que deu por anos, mas jura que não é veado. Pois nunca gostou. Deu só porque precisava.
Por outro lado tem cara que nunca deu , mas sempre teve vontade. Será veado?
É uma diferença filosófica. Como se define a identidade? Pelo “eu interior”, a alma? Ou pelas ações práticas na vida?
A primeira definição é francesa, a segunda é americana.
E a polêmica continua. E se o cara deu, mas parou de dar? Ainda assim continua veado? Veado é tipo o Flamengo? Uma vez flamengo, sempre flamengo!?
To tentando deixar de ser político. Mas que vicia vicia. Não é fácil. E não tem ajuda psiquiátrica pública para ex-políticos largarem o vício.
Somos uns viciados incompreendidos. Será que não existe o EPA? Ex-politicos-anônimos? Só espero que na sala lado não tenha o EVA: Ex-Veados-Anonimos.
Até imagino a sala do EVA: tipo boate de strip, cheia de Evas tentadoras tentando seduzir ex-veados melancólicos que dão depoimentos tristes.
O objetivo é converter o ex-veado em homem mesmo. Pois uma coisa é ser ex-veado, outra bem diferente é ser homem.
Outra coisa que vicia é ser cineasta. Como não é bem uma profissão, é um adjetivo que define o seu ser, a gente se apega a essa “identidade”.
Mesmo sem filmar há anos, mesmo vivendo de outras coisas (tipo produzir mostras), as pessoas ainda continuam se definindo como cineastas.
Seria bom ter um ECA. Ex-cineastas-anonimos. Muitos seriam até da ECA (Escola de comunicações e artes). Os ECA da ECA. Tenho vários amigos que precisam. Eu mesmo.
ECA, alias, sempre me lembrou MELECA. O Mel que ECA.
É duro admitir, mas acho que eu (e mais um monte) virou cineasta fascinado pela entrevista do Walter Salles. Achando que podia ser como ele e sem dar importância ao fato dele ser dono de banco.
É a imagem do intelectual midiático que fascina os jovens futuros cine-astros. E, no fundo, a gente pensa que uma hora vai dirigir (e comer) a Débora Secco.
Mas já foi a época que atriz dava para cineasta. Isso é anos 60, aonde artista-intelectual ainda tinha prestigio e existia musas como Helena Ignez. Agora, as Ignez atuais, são só alcoólatras desesperadas.
E as atrizes charmosas são empregadas da corporação televisiva. Elas começaram na malhação e cresceram em ambiente hermeticamente fechado: o PROJAC.
As atrizes atuais não dão para cineastas-intelectualizados. Dão para diretores de TV (ex-atores) no início e terminam casando com outros atores e/ou empresários.
O PROJAC é tipo um zoológico que concentra as melhores espécimes de nosso DNA tupiniquim. Elas fazem reprodução assistida.
E como é interesse da corporação, essas espécimes não podem reproduzir com cineastas-intelectualizados. Se o cara pensa muito, contamina o DNA ideal da beleza alienada corporativa.

2 comentários:

  1. Muito bom o seu texto, Newton. Como você bem diz, ser cineasta é mais um vício do que uma profissão que, paradoxalmente, só pode ser exercida por quem não precisa "di monei"(como cantava o Ultrage a Rigor) para o sustento.Fiquei esperando uma conclusão no seu texto mas talvez isso não seja mesmo possível.

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