quarta-feira, 12 de setembro de 2012

O humanismo de um favela movie


O humanismo de um favela movie

Diferenças e semelhanças entre o brasileiro Bróder
e o americano Quatro Irmãos retratando as relações familiares

Paulo Henrique Silva*

Desde que a favela se tornou interesse geográfico e temático do cinema brasileiro, no início do milênio, sua abordagem sempre representou uma espécie de subgênero 100% nacional, principalmente depois que Cidade de Deus (Fernando Meirelles, 2002) influenciou esteticamente vários filmes, nacionais e estrangeiros. Num momento em que mostra visíveis sinais de desgaste, esta vertente ganha outros ingredientes com Bróder, longa-metragem de estreia de Jefferson De.

Com sua trama passada no Capão Redondo – uma região de São Paulo que parece desconectada com a capital, por suas diferenças sociais e certa autonomia (ou isolamento, como preferirem) – o filme foi saudado pelos críticos por seu intenso humanismo, ao retratar a relação entre três amigos de infância que, vivendo momentos muito distintos, determinam seus destinos ao se cruzarem novamente no dia do aniversário de um deles.

Na forma como apresenta esta história de amizade, Bróder nos remete instantaneamente a uma produção de 2005, Quatro Irmãos, (Four Brothers, 2005) de John Singleton, protagonizada por Mark Wahlberg, Tyrese Gibson, Terrence Howard e Cliwetel Ejiofor. Diretor preocupado com a questão negra como Jefferson De, Singleton acompanha quatro irmãos adotivos que se reencontram durante o funeral de sua mãe, descobrindo que ela foi morta por uma perigosa gangue, o que os induz à vingança.

Um dos elementos centrais da filmografia de ação de Hollywood, o “olho por olho, dente por dente” não é o que interessa ao realizador brasileiro. Muito pelo contrário. O roteiro de Jefferson e Newton Cannito extrai apenas o estreitamento do laço familiar em razão das adversidades que os irmãos se deparam pelo caminho.

Os amigos Macu (Caio Blat), Jaiminho (Jonathan Haagensen) e Pibe (Sílvio Guindane) expressam este sentimento. Tudo acontece num só dia, mas a maneira como o texto absorve esta relação em prol da narrativa transforma estas 24 horas num pulsante retrato das diferenças e semelhanças entre eles.

O que os une é o Capão Redondo, espaço geográfico que se torna um personagem à parte no filme, ameaçador e aconchegante ao mesmo tempo. É para lá que Jaiminho, agora um rico jogador de futebol negociado com o exterior, se dirige em busca da renovação de suas raízes e também de refúgio.

Os outros dois personagens também estão muito identificados com o Capão, ainda que, como o futebolista, mantêm um sentimento contraditório, que os levam para fora dali. Pibe não vê a hora de sair do lugar, largando a pobreza para trás. Macu se deixa contaminar pela violência, trabalhando para criminosos por falta de outra oportunidade. Sua fuga é mais interiorizada, como se o espectador lesse em sua mente a vontade de desaparecer para não cumprir a missão que lhe deram. Em Quatro Irmãos, os protagonistas também carregam este olhar ambíguo sobre o local de suas origens – um bairro pobre de Detroit.

Se no filme de Singleton a razão para os “manos” estarem reunidos é a morte, em Bróder a motivação passa a ser um aniversário. Cerimônias que simbolicamente dizem muito dentro da trama. No americano, da morte caminha-se para o renascimento daquele núcleo como família. No brasileiro, a direção é inversa, indo do nascimento (a celebração de aniversário) para a morte. Apesar do desfecho trágico, a mensagem final de Bróder se revela idêntica, reforçando a importância daquelas relações.

Outra diferença entre os dois longas reside no fato de que, em Quatro Irmãos, o núcleo se solidifica gradativamente para a concretização da vingança. Em Bróder, as distinções entre Macu, Pibe e Jaiminho desaparecem nas primeiras cenas, culminando na sequência do campinho de futebol, muito bem costurada e representativa da existência de uma certa igualdade entre eles.

O que cada um faz da vida não é importante. Só tem valor para quem está de fora, para os demais personagens que circundam o trio. Como os criminosos que pedem a Macu para sequestrar o amigo rico. Do contato com os outros é que a tensão se estabelece, num rico conflito oferecido pelo roteiro. A evocação dos tempos pretéritos, através de uma boa dose de saudosismo, cria uma redoma de harmonia no meio daquela zona perigosa.

Hitchcockianamente, Jefferson não esconde para o espectador os planos perversos que se manifestam pelos becos do Capão. O suspense deriva de nosso saber, de uma impotência em antecipar os acontecimentos e não poder fazer nada para impedi-la. A construção da relação dos três amigos é tão envolvente que lamentamos a possibilidade de que ela seja maculada.

Ao ir de encontro à essência do homem como ser coletivo e carente de afeição, o filme vislumbra um paraíso que está, em primeiro lugar, acima do espaço geográfico. Assim, brilhantemente o texto ajuda a desmistificar a ideia simplista de que o ambiente determina o que as pessoas são. Em meio à violência do Capão, surgem personagens que cultivam o amor verdadeiro.

O Capão deixa de ser um local reservado apenas ao que é mau e se torna um endereço como qualquer outro, não mais desconectado de São Paulo. É como se o longa “descapaoredondasse”, tirando-lhe o estigma. O bem – ideia tão desgastada e distante do mundo real – se enfronha naquele mundo de maneira arrebatadora, que nem mesmo o final trágico é capaz de tirar. É daí que emana o grande humanismo de Bróder.

Dentro do gênero “favela movie”, a produção de Jefferson De é a que mais se destaca por este carinho dedicado aos personagens. Eles estão envolvidos por um sentimento nostálgico, da época de crianças. Seguindo este prisma descobrimos outra grande diferença entre os filmes, já que, em Quatro Irmãos, é o “laço de sangue” que conta como gatilho para a realização da vingança, com a harmonia entre eles surgindo no presente, a partir desta reunião. No brasileiro o reencontro tem outra função, apontando para duas direções. O roteiro simultaneamente caminha para o passado e para o futuro, solidificando a relação com boas lembranças e testando a permanência desta identificação nos dias de hoje.

Neste vai-e-vem narrativo aparece o suspense, que, desde o primeiro minuto, revela para o espectador o que está para acontecer. Quanto mais nos sentimos emotivamente envolvidos pela história de amizade (percebendo que, mesmo com destinos tão diferentes, eles ainda carregam uma pureza que vem dos tempos de infância), mais o texto nos amedronta com a possibilidade de perda.

O expediente usado por Cannito/De é muito simples e funcional, dividindo-se entre cenas de congraçamento e violência. Dentro de casa, onde detonam outros conflitos, não menos importantes, como a gravidez da irmã de Macu, e no reencontro dos amigos, a atmosfera é de festa. Lá na rua, sempre de forma furtiva, um clima de temor nos faz constantemente lembrar que a felicidade tem hora para acabar.

O roteiro se apropria bem do espaço, também de maneira muito simples. Macu mora no Capão como seus pais (Cássia Kiss e Aílton Graça), mas fora da casa onde foi criado. Deslocamento que parece ter-lhe tirado uma espécie de escudo familiar, deixando-o suscetível ao que vem de fora. Percebemos a importância deste elemento quando prestamos atenção na primeira e na última cena de Bróder, que acontecem exatamente no mesmo lugar: a residência do personagem de Caio Blat.

A abertura do filme acompanha, sem cortes, a saída de Macu, com o aniversariante levantando-se pela manhã e descendo a rua para o que será um dia mágico e trágico. No final, ele retorna à mesma casa, desta vez para morrer, com o corpo jogado à porta. O fato de estar naquele lugar representa, simbolicamente, a impossibilidade de chegar até seus amigos. A música sobe e a câmera sobrevoa a região, com Bróder chegando ao desfecho levantando uma pungente bandeira supra-racial.

Distinções de cor, muito presentes na produção do gênero como retrato do fosso social brasileiro, deixam de ser o centro da problemática do filme, com as questões humanas superando as diferenças raciais. A amizade é valorizada indiferentemente de quem são ou de onde vêm. Macu é branco e seus dois amigos, negros. A pele nunca é colocada em primeiro plano. O estranhamento por esta “mistura” fica a cargo do espectador, que logo se deixa levar pela força daquela relação, enxergando-os como iguais. Esta é uma das grandes contribuições de Bróder, que também é manifestada em Quatro Irmãos, com Mark Wahlberg sendo o irmão branco de Tyrese Gibson, Terrence Howard e Cliwetel Ejiofor.

Tanto Booby Mercer (Wahlberg) quanto Macu não buscam impor a cultura branca naquele ambiente. Estão longe de representar uma “supremacia caucasiana”. Surgem em sentido contrário, como revela a cena em que Blat bate no peito e revela um orgulho de ser negro, embora não o seja. Um orgulho não forçado e não panfletário que nunca tínhamos visto no cinema brasileiro com esta intensidade e beleza, refletindo uma pergunta levantada pelo diretor durante o Festival de Gramado de 2010: “Quem é e quem não é negro no Brasil?”.

* Repórter e crítico de cinema do jornal Hoje em Dia, de Belo Horizonte, há 16 anos. Escreve para vários sites e publicações, como Cinema em Cena e Programadora Brasil. Também publica no blog Plano Geral

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