terça-feira, 2 de agosto de 2011

Menos respeito e mais amor incondicional

O debate sobre documentario brasileiro é obcecado pela ideia de respeitar as pessoas.O problema é que respeitar é pouco.Temos que amar.

Mais que respeitar temos que amar as pessoas mesmo. Amar incondicionalmente, amar sem julgamento, amar mesmo coisas que julgamos ruins.

Isso de respeitar é papo pequeno burgues de quem tem medo do diferente e/ou é tão egocentrico que acha que pode destruir a vida do outro

Mas um filme não destroi a vida de ninguem. Só acredita nisso documentaristas/burgueses/egocêntricos que levam a vida em torno do cinema. As pessoas levam a vida em torno da vida mesmo.

Por isso, não precisa ter medo de destruir a vida das pessoas. Eles não são vitimas, são pessoas como nós. O respeito que precisamos é fazer contratos. O respeito se resume a pegar a cessão de imagens. O resto é amor.

E quando amamos o personagem/pessoa na filmagem ele pode revelar coisas que os pequenos burgueses respeitadores abominam, como crimes, taras, éticas malucas, etc.

Mas eles só revelam esse tipo de coisa se o clima for de amor incondicional. Algo que os documentaristaristas/respeitadores /assustados não conseguem fazer

Respeito é distanciado, amor é empático.

Um principio para o documentário brasileiro: menos respeito e mais amor incondicional.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Um pouco de fantasia para o cinema brasileiro

É triste mas precisamos constatar: o cinema brasileiro não tem heróis, franquias e nem universos transmidiáticos.

Estamos fazendo setenta filmes por ano há algum tempo mas, até aonde eu consigo lembrar, apenas dois filmes conseguiram se tornar uma marca além do cinema: "Tropa de Elite" e "Taina". O primeiro, no entanto, por ser drama social não tem grande potencial de desenvolver um universo transmidiático em torno dele. Para universo transmidiático o gênero fantasia é muito melhor.

Alias, isso também é impressionante: não temos filmes do gênero sci fi e fantasia. Nosso cinema é viciado em realismo. Temos ótimos filmes reais (sejam comedias, sejam dramas), mas não passeamos nunca no reino da fantasia.

E é assim que a historia se repete ano a ano. Chega as ferias escolares e nossas salas são ocupadas pelos super heróis norte americanos, constantemente recriados e oriundos do mundo todo: do nórdico Thor, até a internacionalista equipe do X-Men. Os americanos querem o mundo todo para eles. Bobos somos nós que deixamos eles ocupar.

Um desavisado poderia dizer que não temos condições técnicas de fazer fantasia no Brasil, por conta dos custos de efeitos especiais. Bobagem. Nossas finalizadoras tem feito coisas ótimas em publicidade e, com mais investimento, teríamos condições de levar os efeitos ao cinema. Pode não ser com a ultima tecnologia, mas seria com a penúltima e tenho certeza que seria suficiente para conquistar nosso público que deve estar ansioso por uma fantasia 100% nacional. O que falta então? Falta um choque em nosso cérebro, uma quebra completa de paradigmas mentais de nós mesmos, realizadores de cinema e gestores de politicas públicas para audiovisual.

Alguns empecilhos mentais que tem atrapalhado o desenvolvimento da fantasia em nosso cinema:

a) Desprezo por heróis. Temos grande dificuldade (vergonha, mesmo) em construir heróis que não sejam anti-heróis. Complexo de vira-lata bravo. Podemos é claro ter ótimos anti-heróis, mas podemos também ter, sem medo de ser feliz, heróis nacionais.

b) Desprezo "esquerdista antigo" pela fantasia. O melhor da esquerda mundial já sabe há tempos que o mundo da fantasia é importante na construção de novos valores. Mas nosso cinema - que nem de esquerda é mais -ainda parece contaminado pela antiga tradição de realismo socialista que contaminou a esquerda no século passado. Será isso mesmo? Será que o realismo socialista ainda nos domina? Tenho dúvidas também, me parece surreal demais. Mas não vejo outra hipótese. Ou alguém tem alguma explicação diferente para nosso cinema ser quase que inteiro feito de filmes que são dramas e comédias sociais?

c) Desprezo por cinema de gênero. No Brasil, resultado das ideias do Glauber, o gênero é considerado "fórmula" americana e fica em oposição ao cinema autoral. O cinema autoral é sempre o filme pequeno, anti-indústria. Bobagem. Basta ver que quem dirige os filmes de super-heróis americanos de maior sucesso são autores, muitos oriundos do cinema independente, como Tim Burton (Batman), Sam Raimi (Homem Aranha), Branagh (Thor). Os americanos não se prendem a essa falsa separação entre cinema autoral e superprodução de gênero. Ser autor é grife e isso é importante para a indústria de cinema, que é uma indústria de alto capital criativo. Filme sem autor nos EUA são os telefilmes que são de produção pequena.

d) Restrição de investimento. Ainda pensamos pequeno na politica audiovisual e ficamos chocados quando um filme custa mais que 15 milhões. Bobagem. Temos que ter coragem de fazer super produções pois temos potencial criativo para sermos uma grande potência audiovisual e só seremos se investirmos pesado em alguns filmes. Mas quando se fala isso alguém sempre argumenta: mas é dinheiro público (incentivado). É verdade. Mas e dai? Dai que, na ideia simplista de democracia que predomina, o dinheiro público deveria ser distribuído igualmente entre todos os pretendentes a fazer filmes. Isso não é política audiovisual industrial. É política assistencialista, lembra bolsa família. Nosso cinema merece mais e nosso povo merece um cinema que pense grande. Temos é claro que ter preocupação com o dinheiro público, mas o critério não é distribuir igualmente a grana entre todos os cineastas necessitados. O critério de investimento deve ser o retorno do filme, em impacto social e bilheteria. Portanto, se investir mais, tem que ter mais retorno, simples assim. Como qualquer indústria, aliás.

e) Por fim: sinto muita falta de uma indústria de História em Quadrinhos no Brasil. Foi nos quadrinhos que surgiram todos as franquias americanas. No Japão e Coreia é aonde até hoje são testados os personagens. O HQ é a base de uma indústria criativa que construa personagens. Infelizmente isso é pouco debatido no Brasil. Ainda pensamos politica cultural segmentada por mídia (cinema, livro, etc..). HQ fica numa fronteira indefinida e é desprezado. Enquanto não tivermos uma política industrial agressiva, criando inúmeros estúdios de criação de historias e muitas editoras especializadas, não teremos personagens nacionais fortes. É no HQ que testaremos muitos personagens para ver em qual o público irá se identificar e aí investir pesado na produção audiovisual transmidiática.

Artigo publicado na Revista de Cinema- http://revistadecinema.uol.com.br

O mercado de distribuição

Dei uma entrevista para uma tese de mestrado sobre distribuição e organizei umas idéias que penso sobre o tema

Segue para quem se interessar

A pergunta foi: Como esta o mercado de distribuição audiovisual hoje e quais as tendências de futuro?

Temos poucas distribuidoras brasileiras e poucas politicas de apoio a elas. Está aumentando agora, mas precisa aumentar mais.

Temos que pensar em apoiar empresas financiadoras, que comecem a trabalhar com empréstimo e capital de risco. Essas empresas podem estar associadas a distribuidoras. Aí aproximaremos mais a distribuição da produção, caminho natural dos mercados

Mas para isso precisamos também ter mais empresas de distribuição e empresas focadas em nichos.

O cinema ainda esta na logica apenas de block buster. O mercado americano estruturou assim e todos estão seguindo essa logica. Tem que aprender a trabalhar com nichos e cauda longa.

Possivelmente as empresas de distribuição do futuro não serão de cinema. Serão distribuidores de todas as mídias ao mesmo tempo. É mais focada em um tipo de conteúdo, do que na distribuição física

A logica de distribuição de cinema ainda é analógica.

A empresa de distribuição clássica se preocupava com logística (entrega das copias de película nas salas). Isso vai acabar com a distribuição digital.

Então o que sobra a distribuidora? A promoção. A promoção é a grande função da distribuidora do futuro. Não sei nem se o nome será distribuição, pode ser que o nome mesmo da empresa vai ser agencia de promoção. E a distribuição do futuro deverá também saber bolar a estratégia de cada filme. Alguns são para publico genérico e de massa. Outros são para filmes de nicho.

Imagino empresas especializadas em distribuição de conteúdos ecológicos, por exemplo, que atuem no segmento e distribuam vários conteúdos para esse setor. Conteúdos para celular, cinema, TV, vídeo, games, etc... Outra empresa pode focar em conteúdos homossexuais e assim por diante.

Além disso a distribuição também é de uma época aonde você visava ATINGIR o publico. A logica digital esta mudando. É a logica de pessoas seguindo o que querem. Veja o twitter, é a lógica dos seguidores. Mais do que atingir é convencer as pessoas a nos seguirem

É outra logica.

E cada vez mais cresce a importância do boca a boca. Ele sempre foi importante, mas no mundo digital é ainda mais importante. Então tem que pensar estratégias transmidiáticas e trabalhar com comunidades.

E para isso as distribuidoras do futuro serão agregadoras de conteúdo, com marcas e identidades fortes, que agreguem conteúdos e criem comunidades com pessoas ligadas ao mesmo interesse que são seguidoras da empresa.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

RUA - Revista Universitária do Audiovisual

Link da revista impressa: http://www.ufscar.br/rua/site/wp-content/uploads/rua_projeto_site_completo.pdf

domingo, 3 de julho de 2011

O Sabido que não era Sábio

Dr. Canneta não era sábio mas era sabido!
Ele vivia em pânico. Mas queria viver!
Ele tinha fé que existia um lugar melhor. Não percebia que o lugar melhor podia ser, ali mesmo! Que o lugar melhor era só um jeito de ver!
O lugar melhor para ele era outro lugar! Um lugar muito longe!
Um lugar aonde ele não estava. Mas que ele queria estar
Dr. Canneta nasceu criança. De cara acho aquilo tudo um saco!
Mas Dr. Canneta também era humano
Ele se escondia por trás de uma figura pública: o Sr. Cannito!
Ou pensava que se escondia
Pois para todo mundo que olhava, o Dr. Cannito era igual ao Dr. Canneta!
Na verdade, quem se escondia era o Dr. Cannito!
Dr. Canneta dominava!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Saudades da propaganda (trecho de um romance antigão meu e nunca publicado, chamado Segurando os pratos)

O que eu mais sinto saudade são os slogans e jingles publicitários. Na época eu mesmo os criticava por incitarem o consumo mas nunca entendi que aquilo era materialização do sonho de uma sociedade unificada, que poderia ser integrada através do consumo de bugigangas. A publicidade era o culto do capitalismo. Hoje tenho saudade daqueles dias de união, daquele momento onde todos cantavam mesmas músicas, mesmos rimas e todos consumiam as mesmas coisas.
Na minha infância a publicidade foi extramente presente. Lembro-me da: Groselha vitaminada, Milani... Yahoo! É uma delícia, yahhoo. No leite (yahoo) no refresco e no lanche, yahoo”. Anos depois esse gritinho simpático da excelente groselha genuinamente nacional virou nome de um site da internet. Obviamente um site de capital virtual (eu pessoalmente nunca entendi o que é isso) e multinacional. Antropofagia ao contrário.
Lembro-me com tristeza do momento em que a propaganda começou a ser segmentada, propaganda na Rede Record começou a ser diferente de propaganda na Rede Globo, que era diferente de propaganda na TV a cabo, etc.. Até que chegou o dia em que os empresários perceberam que os pobres não consumiam mais nada além de contrabando do Paraguai em lojas de 1 real e que não adiantava mais anunciar nem na Record . Logo depois acabou os programas populares e os grupos empresáriais pararam de emissão de sinal para TV aberta - restando apenas a TV por assinatura.
Alguns grupos independentes tentaram utilizar o espaço vago para fazer programas alternativos. No começo eles cresceram com certa autonomia e experimentalismo Mas um dia a repressão chegou, foi rápida e extremamente violenta..
Os programas era acusados de incitar a violência e o sexo, de perverter as crianças, etc, etc... Em poucos dias centenas de video-makers foram assassinados e estúdios destruídos. Os principais suspeitos pelos assassinatos foi o Grupo por Qualidade na TV, movimento que começara anos atrás próximo a partidos de esquerda, mas que, naqueles dias, era dominado pela Juventude Politicamente Correta e pela Liga de Mães Solteiras mas com Moral. Ambos os grupos combatiam esses programas por considerarem que educavam mal as pobres crianças, (escrever depoimento: irmãozinhos mais novos dos jovens PC (sigla de Politicamente Correto) e filhos das MSM – Mães Solteiras mas com Moral). Os movimentos políticos de oposição, já armados na época não, ofereceram resistência pois os videomakers não eram militantes filiados. Eu, por sorte, era apenas um colaborador, nunca acreditei muito no movimento e fui poupado. Além disso na época eu estava muito mais preocupado com minha candidatura a presidente do Brasil.
Com o fim da emissão de sinal para TV abertas milhares de pobres começaram a tentar vender seus aparelhos de televisão. Foi um verdadeiro desespero. Os que perceberam que aqueles programas não iam durar muito, venderam logo suas TVs e ainda pegaram um pouco de dinheiro. Mas a maioria manteve sua TV em casa até o último instante, até ser exterminado o último grupo de produção independente. A maioria deles não conseguiu vender a TV para ninguém. Quando houve a reforma urbana e os pobres foram expulsos das cidades a maioria deixou as TVs no barraco e nas casas, e ela passou a fazer parte do cenário. Ao que parece foram derrubadas junto com as casas.

O ÚLTIMO POBRE

O último pobre que entrou numa universidade pública se chamava Josué. Eu o conheci quando fazia cursinho. O vestibular estava cada vez mais díficil e o número de vagas reduzido.
Na época já existia o Movimento pela Assistência Estudantil se fortalecia. Eles se aliaram ao Movimento pela Qualidade de Ensino e a FUVEST e decidiram dar uma bolsa de 20 salários minímos para cada pobre que entrasse na USP, além de carro do ano, seguro saúde. O CRUSP virou um flat para estudantes mais carentes. Servia comida no quarto, atendimento de primeira.
A idéia era interessante: um pobre não pode estudar na USP pois não tem tempo de estudar em tempo integral e por isso atrapalha o cotidiano das aulas. A única solução é se um pobre entrar devemos fazer ele ficar rico. A idéia parecia mirabolante mas foi aceita como projeto. Para viabilizá-la era necessária reduzir, a curto ou médio prazo, o número de pobres ingressantes. Para isso contaram com a ajuda do Movimento Estudantil, através do Movimento pela Qualidade de Ensino, da Associação de moradores do CRUSP (fascinada com a idéia do flat)
A idéia foi genial e tudo se juntou. Qualidade de Ensino, Excelência Exclusão Social e Assistência Estudantil Foi uma saída ótima para os pobres que já tinham ingressado: em troca de adesão ao movimento, a assistência estudantil melhorou bastante. A comunidade universitária ficou unida e foi possível implantar as reformas.